Uma pausa nas eleições para tratar de um assunto tão importante quanto, e que deveria estar na discussão política: a falta d’água. Quando a gente abre a torneira e não sai nada, a única certeza é que depois também não haverá água, e no dia seguinte ao dia seguinte àquele dia seguinte também não, e assim por um tempo que ninguém sabe quando será, e quem diz que sabe mente, descobrimos que nos tiraram muito mais do que água.
No filme Tubarão, de Steven Spielberg, há uma cena icônica que mostra um monstro emergindo com uma boca capaz de palitar os dentes com o barco que pretendia caçá-lo e o xerife da cidade diz, na frase que ficou antológica para quem gosta de cinema: “Vamos precisar de um barco maior”.
Não sabemos o momento exato em que água é bem de poucos em Santa Cruz. Já virou mercadoria cara. Há filas para comprar água. 40 reais é 1 mil litros. Um bem de todos cujo benefício é de poucos. A classe média corre para comprar caixas d’água extras e galões, há quem possaestocar milhares de litros. Para classe pobre, os baldes viraram objetos de desejo. Parece que a cada dia, por aqui, vamos precisar de um balde maior.
Em Santa Cruz o problema d’água passou por umageração, acreditando que estava tudo sob controle. Não está! Agora que as figuras paternas e maternas ruíram – e a gente tem certeza disso quando, diante de um problema tão sério de abastecimento, a resposta das autoridades é a procura de um culpado. E todos são culpados, se pudessem, culpavam até a gestão anterior.
Acho que já está na hora de virar gente grande. Admitir que o Rei está nu (e perdido). Os constituídos não só falsearam a realidade como não sabem o que fazer agora. Não é normal, aceitável e muito menos razoável 15, 20 ou mais de 30 dias sem abastecimento de água. Judiciário já tem concedido dano moral ao consumidor por falta de água em períodos longos, considerando falha na prestação de serviço. O que é correto! O direito a dignidade não deve ser concedido à prestação.
O tempo de despertar passou, agora é preciso acordar em pé. Qualquer resposta de que a culpa é do outro não é resposta. O problema é estrutural. Diante de vários culpados, em que nenhum admite a culpa, a populaçãoencontrou-se só com um monstro sujo na sala.
Alyson Alves de Lima – Advogado.
Mestre em Direito Constitucional.
As opiniões deste artigo, são de mera responsabilidade do escritor.